Esses dias andei me perguntando se todas as outras pessoas, além de mim, também já sentiram medo de saber o que não queriam, ver o que gostariam de esquecer logo em seguida, ou ainda medo de ouvir o que praticamente seria como levar uma facada diretamente no coração. Imagino que todos já devem ter sentido algo do tipo. 

Paralelamente, parei pra pensar e percebi que o sentimento de medo permeia nossas vidas não por menos que questões de defesa. Imediatamente uma analogia me veio em mente, e pensei: sentir medo é como se estivéssemos diante de um muro, nos protegendo de algo que está do outro lado, e supostamente esse algo pode nos afetar negativamente de alguma maneira.

O muro, de fato, nos protege de sermos atingidos. Apesar de que às vezes só o ruído que “o que há do outro lado” emite, ou o simples fato de sabermos que por trás daquela barreira há algo que pode nos machucar, já é suficiente para tirar um tanto da paz de nosso caminho. Então, seguimos em frente na vida, a curtos ou longos passos. E por mais que desviemos o olhar, sabemos que o muro estará lá, no mesmo lugar, desempenhando a mesma função. E é justamente por escolhermos seguir em frente enquanto deixamos aquele muro levantado, que podemos pensar no surgimento do que decidi chamar de fantasma emocional.

Sentir medo é como se estivéssemos diante de um muro, nos protegendo de algo que está do outro lado, e supostamente esse algo pode nos afetar negativamente de alguma maneira (…)

Sim, faço menção à ideia tradicional de fantasmas, que tanto ouvimos por aí. Seres do “outro lado” que decidem assombrar um lugar ou alguém. Eles têm a capacidade de aparecer nas horas mais inoportunas, quando menos esperamos. No caso dos fantasmas emocionais, eles assombram especificamente pessoas e se alimentam de sentimentos específicos diretamente ligados ao(s) nosso(s) medo(s). Curiosamente, quando eles começam a nos perseguir, nós mesmos os alimentamos.

Quando somos assombrados por fantasmas emocionais, penso que precisamos optar principalmente entre dois caminhos:

  • Seguir em frente e deixar o muro levantado, permitindo assim que o fantasma o atravesse e nos assombre de tempos em tempos, mesmo que novos episódios de assombro possam demorar décadas para acontecer. Porém, há também os casos em que, por alguma razão, esse fantasma pode até deixar de nos perturbar, por estar fora de contexto. Tudo  depende do que temos feito de nossas vidas;
  • Irmos de encontro ao muro, quebrá-lo e finalmente encararmos o que tanto nos incomoda do outro lado. Esta segunda opção pode parecer um pouco masoquista, mas pode igualmente ser a maneira mais rápida de extinguir a fonte de onde partem os fantasmas emocionais. Contudo, para optar por este caminho, é ideal que o coração e a mente estejam bem preparados para o encontro com o outro lado.

Apesar de que, na maioria das vezes, particularmente falando, eu prefira ir de encontro ao que há do outro lado, não vou negar que às vezes eu preciso caminhar distante do muro para tomar fôlego antes da quebra da barreira. Procuro sempre não deixar fantasmas me assombrarem tanto, pois eles indiretamente atrapalham meus passos na minha caminhada da vida. Agora, claro, cada um sofre com um problema diferente, nas mais variadas intensidades, e somente cada um de nós, individualmente falando, sabe o nível da própria força para reagir diante de um determinado cenário.

Em uma outra divagação de analogias, pensei que quando eu enfrento um fantasma emocional é como se eu estivesse na beira de um mar intenso, cheio de ondas, estando dentro dele como um simples banhista. Algumas vezes, em um momento de distração, eu posso me deparar com ondas acima da média vindo em minha direção, e exatamente naquele ponto da água que estou, não há muito o que eu possa fazer. O ponto onde estou está rapidamente secando. É a onda que puxa o que pode para ganhar força e forma. Logo, precisarei escolher dentre restritas opções: tentar fugir dela em pleno quebramento, o que pode me render um dos maiores “caldos” de minha vida ou tentar correr em direção a onda antes que ela quebre, tentando passar por cima. E, caso seja tarde demais para sobrepô-la, poderei mergulhar o mais fundo que puder. Nesta última opção só sentirei a força dela sobre minhas costas, e poderei até ser puxado, mas ao menos acho que sairei inteiro.

Imagino que a simples analogia do mar pode nos mostrar fazer pensar sobre como alguns problemas, perante nós, podem ter sua força reduzida quando os encaramos de frente.

(…) precisamos de coragem para caminhar na direção que nos incomoda, pois pobres de nós se nossos antepassados nunca saíssem de suas grutas ao ouvirem trovoadas de uma tempestade (…)

Em termos mais práticos e menos subjetivos, os fantasmas que nos assombram podem ter distintas origens, como: rompimento de relacionamento amoroso, morte de algum ente querido ou de um animal de estimação, uma quebra de confiança com alguém, um resultado de algo que tememos saber uma resposta, as consequências do que poderia ser feito e não fizemos, entre outras milhares de possibilidades.

Com um pouco de reflexão e observação, acho que muitos podem perceber que a grande maioria dos casos em que permitimos a existência de fantasmas emocionais tem origem em algum tipo de arrependimento, além, claro, do fator básico para o levantamento dos muros: a autodefesa. Podemos perceber também que, para derrubarmos as barreiras e irmos de encontro ao que nos assombra, precisamos de coragem para caminhar na direção que nos incomoda, pois pobres de nós se nossos antepassados nunca saíssem de suas grutas ao ouvirem trovoadas de uma tempestade, do contrário os estrondos seriam apenas mistério e motivo para pânico até os dias de hoje. Entretanto, penso que ainda há um outro fator que pode atrapalhar a derrubada do muro: algum tipo de orgulho. Por sinal, creio que seja importante que cada pessoa pese seu orgulho em suas tomadas de decisão, para averiguar o quão vale a pena mantê-lo.

Após essas reflexões, encerro meu raciocínio destacando o que podemos extrair com mais clareza dos tópicos pensados:

  • os fantasmas emocionais somos nós mesmos que os criamos, alimentamos e os permitimos nos assombrar.
  • Quanto mais fugimos de nossos fantasmas, mais eles parecem nos perseguir. Então, penso que, diante dos milhões de possibilidades de toda sorte que enfrentamos na vida, é praticamente inevitável que fantasmas venham a aparecer em nosso caminho.
  • Algumas vezes preferiremos derrubar o muro, em outras decidiremos seguir em frente e fingir que ele não existe, ou até mesmo deixar que o fluxo da vida se encarregue de derrubá-lo.

No entanto, assim como para muita coisa na vida, penso que o melhor a se fazer antes, durante e após uma assombração fantasmagórica, é buscar sempre o equilíbrio emocional e mental, o que pode demandar tempo, experiência, maturidade e coragem para alcançá-lo. O equilíbrio pode ser difícil de se atingir, mas acho que nunca impossível.

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