“Faça uma lista de grandes amigos. Quem você mais via há dez anos atrás. Quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?”

Oswaldo Montenegro abordou em A Lista exatamente algo que andei refletindo.

Você já parou pra pensar sobre a quantidade de pessoas que estiveram presentes em sua vida e se foram? Estando elas vivas ou não, mas que simplesmente se foram? Provavelmente foram várias, não é verdade?

Pois bem, esses dias me peguei pensando e me dei conta de que pessoas vêm e vão o tempo todo, de alguém que conviveu com você por décadas até alguém que simplesmente surgiu do nada e completou seus centavos para a compra de sua passagem do ônibus. Pessoas que nos ofenderam, pessoas que nos elogiaram, pessoas que ganharam nossos corações, pessoas que nos ensinaram, pessoas que nós ensinamos, pessoas e mais pessoas. Pessoas estão em todos os lugares, em todos os momentos. Não há como escapar da interação com elas. Mesmo o mais solitário dos homens saiu do ventre de sua mãe.

Também não escapam de nossas vidas os objetos, os animais, os sentimentos e as situações. Não importa o que e quando você interagiu com algum desses elementos, eles também passarão.

A questão mais importante aqui é: o quão estamos prontos para lidarmos com o “deixar ir”? É fato que tudo se vai em seu tempo. Mas já parou pra pensar que geralmente desejamos que se vá apenas o que não nos é tão agradável? Um sentimento de dor, uma pessoa com atitudes incômodas ou uma época ruim, por exemplo, são despachados em desejo por nós, imediatamente. Já um sentimento de prazer, alguém que nos energiza ou um momento feliz, têm efeito justamente  contrário. Temos a tendência de desejar a permanência do que nos faz bem, e almejar o afastamento do que nos faz mal. Somos um tanto sistemáticos quanto a isso, por mais que possamos às vezes insistir no que nos faz mal.

“Pessoas estão em todos os lugares, em todos os momentos. Não há como escapar da interação com elas. Mesmo o mais solitário dos homens saiu do ventre de sua mãe.”

Em termos práticos, se você adulto e é apegado a um brinquedo que marcou sua infância, por exemplo, perceba que a própria época de origem do brinquedo já remete ao que estamos falando aqui. Ele representa algo do passado. É provável que você nem mais brinque com ele enquanto adulto, mas o mantém de modo a segurar o sentimento nostálgico de uma época que não volta mais, já que os anos se passaram e sua saudosa infância ficou para trás. Neste caso, pensemos: o quão vale a pena manter em casa um objeto que representa o passado? Será que ele ainda nos provoca o mesmo entusiasmo de antes? Será que ele ainda representa para nós o que representava no passado? Não seria ele mais valioso e/ou útil nas mãos de outra pessoa? Será que a representação deste objeto não seria algo que a mente e o coração poderiam guardar com muito mais consistência?! Lembremos que objetos também perecerão. Eles poderão perder cor, ser quebrados, desvalorizados, perdidos, queimados e roubados, e talvez até doados. A questão é: eles se vão. Você está pronto para lidar com isso?

Com situações, a lógica me parece a mesma. Se estamos muito bem de saúde, por exemplo, conseguimos andar, falar bem, sorrir e encher os pulmões de ar ao máximo. Então aproveitemos, pois nosso corpo também perecerá, e assim como uma máquina, aos poucos nossos componentes apresentarão problemas, antes de nossa parada total. Se estamos ao lado de uma pessoa amada, não importa quando nem onde, mas o sentimento de alegria estufa nosso coração, aproveitemos. Jogando conversa fora ou um jogo qualquer com os melhores amigos? Comendo uma sobremesa gostosa, então? Não preciso nem mais dizer. Tanta coisa prazerosa temos na vida… das mais corriqueiras como urinar sem dor até outras um pouco mais esdrúxulas como pular de paraquedas, quem sabe. Cada um sabe onde seus focos de prazeres se encontram. Então… aproveitemos, pois isso também passará. Será que estamos prontos para encararmos a realidade de que todo prazer e bonança são momentâneos?

Ainda em termos de situações, podemos pensar sobre as que não nos fazem tão bem. Uma visita incômoda? Não sabemos quando, mas ainda se tratando de uma visita, ela irá embora. Uma gripe? O vigor da saúde voltará em alguns dias. Foi demitido? Haverá uma nova oportunidade em algum lugar. Seu coração está machucado? O tempo se encarregará de confortá-lo. O remorso de sua saída de um grupo de teatro cujos membros pedem tanto para que você fique, também passará. Claro, minha intenção não é ser simplista com o cenário de cada pessoa, muito menos falar de modo leviano, mas sim de apenas exemplificar que, não importa o quão mal você se sinta hoje, mas uma hora esse sentimento também passará. Você também estará pronto para lidar com a ida do que te faz mal?

“De um ponto de vista bem relativo, até mesmo nós nos vamos o tempo todo, já que estamos em constante mudança.”

Animais também permeiam nossa vida todo o tempo. O canto do passarinho na janela passará ao longo da manhã. O nosso amigo cão, gato, anfíbio, rato ou peixe irá partir em breve. A cobra que eventualmente te picou, sequer quis saber de sua dor e foi embora. Aquela mariposa ou borboleta que surgirá de repente na sua frente talvez seja esquecida nos cinco minutos seguintes. O camelo que te carregou pelo deserto em sua visita ao deserto? É provável que você nunca mais o veja de novo e nem sequer lembre do seu cheiro. Até mesmo os animais fazem parte de nossa vida, interagindo conosco mesmo que indiretamente, como fazem as super organizadas e incansáveis abelhas, espalhando pólen aos quatro cantos do mundo. E claro, eles também passarão.

Tudo o que falei também se aplica a pessoas. Elas vêm até nossas vidas, interagem e se vão, por curto ou longo tempo. É um ciclo natural de vem e vai, como ondas do mar. De um ponto de vista bem relativo, até mesmo nós nos vamos o tempo todo, já que estamos em constante mudança. Nossas ideias passarão. Irmãos passarão. Pais e filhos também. Amigos. Supostos inimigos ou indiferentes também irão. Amores de momento ou de “toda a vida” igualmente não escaparão.

“Será que estamos prontos para encararmos a realidade de que todo prazer e bonança são momentâneos?”

Penso que vivemos dentro de um incrível complexo sistema que tem regras próprias, e não falo do sistema criado por nós quanto sociedade, mas de um meio sistematizado pela própria vida. Para compreendê-las, basta termos ouvidos, olhos e coração abertos, e bem atentos aos pequenos e grandes sinais que o dia a dia nos dá. Creio que precisamos ouvir mais, observar mais, relativizar e tentar compreender mais, para termos um real progresso nesta percepção. E uma dessas regras a que me refiro é a regra do “tudo passará”. Me parece que as pistas que a vida nos dá indica que tudo se vai, nem que seja pelos limites de uma das questões mais antigas da humanidade: a morte.

 Nós, tendo plena consciência de que assim as coisas são, de que tudo se vai, seja um sentimento, um objeto ou um ser vivo, talvez o mais sensato seja aproveitarmos e aprendermos o quanto pudermos, de tudo o que chega até nós, mesmo daquilo que não nos faça tão bem. Afinal, “o doce não é tão doce sem o amargo”. Precisamos sempre de muita sabedoria para distinguir os sabores do que a vida nos proporciona, para assim tentarmos vivê-la da melhor forma possível.

E você? Está pronto para deixar partir o que faz parte de sua vida hoje?

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