Impossível não perceber que em todo final de ano há uma movimentação diferente na sociedade. Por alguma razão, muitas pessoas sentem-se mais esperançosas, mais felizes e tendenciosamente buscam fazer algum bem ao próximo. Alguns chamam esse fenômeno de “A Magia do Natal”.

Carrego sempre em minha memória um episódio do meu falecido avô, que se foi quando minha mãe tinha apenas sete anos de idade. Antes de almoçar, no dia de Natal, o nobre jovem de 29 anos sentado com seus seis filhos e sua esposa, ordenou que dois deles (incluindo minha mãe) fossem buscar um morador de rua que estava sentado na calçada para almoçar com eles. As crianças ficaram surpresas, e o questionaram imediatamente. Ele não justificou-se e apenas reforçou sua autoridade. Minutos mais tarde subia os pequenos degraus da sala daquela casa, portando um cajado, um senhor negro de cabelos brancos como algodão de quase noventa anos. Em instantes, o velhinho que estava um tanto sujo e com um cheiro peculiar estava sentado na mesa como todos os outros, comendo fartamente.

– Fique à vontade. Coma tudo o que o senhor quiser. – disse o meu avô.

E naquele momento o senhor certamente sentiu-se apaziguado, mesmo que por uma noite.

Esse breve recorte real da história da minha família nunca me sai da mente, principalmente quando o fim do ano chega. Logo, me pergunto: o que estamos fazendo da “Magia do Natal”? E ainda: por que essa magia não pode ser prolongada? Por que geralmente ela só acorda no mês de dezembro e tende a adormecer rapidamente logo em seguida? Por que esse ciclo se repete e se repete?

Bem, tradicionalmente, aqui no Ocidente, o Natal tem como fundamento celebrar o nascimento de Jesus, mesmo não havendo certezas, do ponto de vista histórico, da data exata do seu nascimento. A “Magia do Natal”, no entanto, parece ter duas faces.

De um lado, temos um Natal que prega a adoração a Jesus, a partilha, a reconciliação, o agradecimento, a humildade, a valorização da família e a caridade.

No lado oposto, temos um Natal onde sua magia é sintetizada em promoções, shopping centers, papai noel, propagandas fantasiosas e a necessidade de se ter um peru assado e um vinho sobre a mesa; do contrário, a ceia natalina será incompleta. Ahh, claro. Esperar até as 22:00 também faz parte.

“Como é crível que possamos dar um presente a uma criança sem antes ensina-la o verdadeiro valor daquele momento?”

Do jeito que a diversidade cultural se impõe em nossa sociedade, podemos notar que, independente de qualquer posição social ou ideologia religiosa, somos influenciados a misturar as duas faces do Natal em nossas vidas. Logo, observamos o espírito natalino atuar de maneira bem distinta em cada indivíduo.

Há quem não dê a mínima para Jesus, mas faz questão de comprar brinquedos para crianças carentes em todo fim de ano ou mesmo alimentar a quem tem fome.

Há quem passe o Natal em orações na igreja, divulgando a paz de Cristo, mas sequer consegue reconciliar-se com alguém que mora na mesma casa ou mesmo desvia o olhar de um morador de rua.

Há quem presenteie todos ao seu redor, mas seu coração está repleto de tristeza.

Há quem não tenha dinheiro para dar um único presente, mas sua presença conforta corações.

Há quem aproveite a inspiração natalina para mobilizar outras pessoas a doarem refeições a comunidades carentes, apesar de pensar que não seria nada mau presentear a si mesmo com um celular novo.

Há quem se interesse apenas por neve, cidades iluminadas e fotos.

Há quem espere ganhar uma chuteira nova e um abraço do papai noel.

Há quem deseje um pai. Ou uma mãe.

“(…) me pergunto como nós, quanto privilegiados, temos estômago para vivermos as razões egoístas do nosso Natal, sabendo que “lá fora” há quem precise de nós?”

A “Magia do Natal” afeta todos os tipos de pessoas, apesar de seu significado ser bem subjetivo para cada indivíduo. Contudo, não podemos negar que muitas das contradições que vivenciamos durante quase 360 dias por ano, tornam-se um pouco mais acentuadas na época natalina.

Enquanto um apenas tem esperança de ganhar de Natal um prato de comida que não teve durante um ano inteiro regado de fome, outro toma um bom banho, perfuma-se e se esbalda em uma farta ceia que poderia ser facilmente partilhada com vinte pessoas, em vez de cinco.

Duas pessoas que não se dão bem, em vez de conversarem e resolverem seus impasses naturalmente, ou mesmo respeitarem a sinceridade dos próprios corações, arrotam um “feliz natal” muito mal digerido. Por educação, talvez. Ou por medo, quem sabe?!

Enquanto a criança de um recebe como presente apenas um beijo e um abraço de um adulto que carrega um sentimento de culpa por não poder dar o que ela “tanto gostaria de ganhar”, a criança de outro ganha um video-game de última geração do pai ou da mãe que vive viajando a trabalho na maior parte do ano.

Situações e situações. E diante do que foi pensado até então, me pergunto como nós, quanto privilegiados, temos estômago para vivermos as razões egoístas do nosso Natal, sabendo que “lá fora” há quem precise de nós? Como nos permitimos comer mais do que o necessário em uma única noite e sequer oferecemos um pouco ao porteiro do prédio ou ao vizinho que não tem a mesma condição financeira que nós? Como é crível que possamos dar um presente a uma criança sem antes ensina-la o verdadeiro valor daquele momento? Como somos capazes ainda de rezar de mãos dadas ao redor da mesa enquanto deixamos a empregada doméstica lavando os pratos? E mais, como ainda somos capazes de deixar a “Magia do Natal” extinguir-se já no dia seguinte? De que adianta esperarmos até a meia noite para iniciar a ceia, se a tradição que a sustenta andou perdida dentro de nós há muito tempo?

Certa vez uma amiga me disse que seria prepotência demais achar que poderíamos salvar o mundo, e que não podíamos deixar de viver nossas vidas por pensar em totalidade sobre todas as mazelas do planeta. Do contrário, não viveríamos. Há também quem recomende que façamos um passo de cada vez, já que não podemos abraçar a humanidade inteira, mas será que ao menos isso estamos fazendo?

E você? O que tem feito do seu Natal?

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