Esses dias me peguei pensando: como é possível desamar alguém?

Definir o amor é algo que permeia a humanidade desde tempos remotos. Há quem diga que existem vários tipos de amor e, para cada tipo, existem diversas vertentes.

Minha primeira curiosidade é: por que às vezes vejo a mim e a outras pessoas tentando definir o amor? Será que buscar uma definição para ele se faz realmente necessário em nossas vidas?

“Pense menos, ame mais.”



“Definições são asfixiantes, e eu prefiro a liberdade.”

São essas algumas máximas que já ouvi acerca deste questionamento. De fato, definir significa delimitar, moldar, tentar controlar. Algo que, ao meu ver, parece bem inerente ao comportamento humano. Digo, somos seres naturalmente curiosos, com uma tendência de controlar tudo que nos rodeia. Contudo, nossa “missão” de definir o amor parece ter falhado ao longo dos milênios, mesmo sendo algo tão presente na nossa trajetória. São infinitos os conceitos e exemplos de amor, e muitos contradizem-se entre si, e assim não chegamos a um veredicto.

(…) tenho minhas dúvidas se o amor é esse sentimento plenamente equiparável a paixão (…) ou se apenas os que dizem amar sequer têm ideia do que o amor seja, em plenitude.

Sendo a definição do amor algo subjetivo, cada um ama a seu modo. Justificando seus atos por suas próprias definições. Apesar de não haver um conceito unificado do que amar significa, nota-se que todos nós já dissemos ter amado. Percebe-se que respiramos o amor constantemente, ainda que não saibamos defini-lo de maneira universal, ainda que o vivamos ao nosso próprio modo.

Sendo os conceitos de amor, de certa forma inúteis de serem explicitados aqui, já que é algo que varia para cada indivíduo, cito alguns exemplos comuns que podemos observar no cotidiano:

Amor de mãe
Amor de pai
Amor de filho(a)
Amor de avós
Amor de irmãos
Amor de amigos
Amor de tios
Amor ao próximo
Amor pelos animais
Amor pela natureza
Amor pelo(a) namorado(a), noivo(a) ou cônjuge.
Amor pelo trabalho
Amor por um país, região, Estado, cidade, bairro ou rua
Amor em preparar algo
Amor a um alimento específico
Amor por uma casa
Amor por um objeto
Amor por um sonho
Amor pelo o que não “temos” (também chamado de “amor platônico”)
Amor incondicional

E certamente a lista não pára por aqui. Creio que qualquer pessoa acredite ter sentido ou presenciado o manifesto de, ao menos, um desses exemplos citados anteriormente.

No entanto, é bem provável que você já tenha ouvido, ou até mesmo falado, que “o amor” por alguém “acabou”. É muito difícil avaliar externamente uma afirmação como essa, se tratando de algo tão abstrato como o amor. Mas pensemos… o amor, que para muitos significa algo transcendental, a força que move o mundo e a vida, o estado que nos permite conceder o perdão acima de tudo, é, para outros, um sentimento que surge, queima e se extingue como um sentimento mais volátil como a raiva ou a paixão. Soa um pouco divergente, não é mesmo?

O fato é que, no nosso contexto social, as pessoas desamam umas as outras por N motivos com suas próprias justificativas e motivações.

Em relacionamentos, frequentemente vemos quem adote o amor com uma espécie de declaração condicional do tipo:

“Eu te amo para sempre, desde que você atenda minhas maiores expectativas.”

Quando as expectativas são quebradas, o amor acaba. Genericamente falando, é assim que os relacionamentos entre pessoas têm funcionado, sobretudo os chamados amorosos. Não importa quantos momentos felizes um casal teve. Não importam quantas noites de confidências e declarações eles viveram juntos. Também não importa todo o sacrifício em dedicação ao outro. Não mais importam os ouvidos, as mãos de apoio e todas as lembranças. Nada mais importa quando a expectativa é destruída.

“Você não é quem eu pensava que era!”

“Você já não é mais o(a) mesmo(a)!”

“Você me traiu! Se me amasse não trairia!”


“Eu amo outra pessoa agora.”

Creio que sustentar algo por expectativas não é um bom negócio, por dois motivos:

  1. Nossas expectativas exigem o controle de milhares de variáveis envolvidas com os nossos desejos.
  2. Justamente pelo motivo número 1, nossa expectativa nunca será plena e falhará em algum momento, pois não conseguimos controlar todas as variáveis envolvidas.

Tendo isso em mente, tenho minhas dúvidas se o amor é esse sentimento plenamente equiparável a paixão, que queima fácil, tem prazo de validade e é realmente tão complexo a ponto de se manifestar diferente em cada pessoa, sendo orientado principalmente à expectativa; ou se apenas os que dizem amar sequer têm ideia do que o amor seja, em plenitude.

O fato é que, no nosso contexto social, as pessoas desamam umas as outras por N motivos com suas próprias justificativas e motivações. Talvez não tenhamos nem o direito de dizer que o amor torna-se confuso nas mãos delas, já que sequer temos consenso sobre o que ele significa de fato. Contudo, parecem haver interpretações e vivências do amor que produzem mais sentimento de paz, maleabilidade e harmonia; e outras que circundam a raiva, a neurose, a rigidez e a polarização.

E você? Já desamou alguém?

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