Como refletido no post sobre desamar alguém, expectativas não são boas coisas a se alimentarem. Quando alimentamos expectativas, seja para um sonho, uma situação, um objeto ou pessoa, certamente nos frustaremos em algum momento. Não se pode exigir que a vaca lata ou que o gelo esquente (do contrário, ele não mais será gelo).

“Um resultado de uma prova ou de qualquer outra coisa, é o que é, e o que fazemos com ele é problema nosso.

Certa vez eu almejei obter uma certificação de nível internacional na minha área de atuação profissional (informática). No início de minha carreira eu via todos os meus colegas de trabalho estudando, comentando e, em seguida, passando na tal prova que os dava o título de “profissional certificado”. Aquilo era muito atrativo para mim. Eu também queria ser um certificado internacionalmente um dia.

Com o tempo me tornei muito bom na respectiva tecnologia da certificação que eu almejava, não por causa da prova em si, mas realmente por prazer em aprender tudo aquilo. Contudo, ao passar dos anos, eu alimentava uma certa necessidade do auto-desafio de fazer aquela prova de certificação. No fim das contas, pensando bem, não era tão auto-desafio assim. Meu ego já estava falando alto demais em relação àquilo. Eu também, de certa forma, queria provar que também conseguiria ser aprovado. Afinal, também me tornei bom naquilo e eu precisava mostrar para todos. De acordo com minhas projeções imaginativas, assim que eu passasse no teste, iria sorrir, gritar e comemorar por um mês inteiro.

Após estudar e adiar a prova em duas semanas, por insegurança, finalmente havia chegado o momento. Eu, frente a frente com a prova eletrônica. Na sala só havia eu e um computador. Dei meu melhor e terminei a prova com um sentimento de que eu atingiria a porcentagem requerida para aprovação. Alguns minutos após a conclusão do teste, o funcionário imprimiu o resultado para mim, olhou-o, dobrou aquela folha em um envelope branco e me entregou.

Olhei.

Aprovado… Eu havia sido aprovado.

Confesso que meu silêncio durou longos minutos, sentado em alguma cadeira daquele estabelecimento. Eu tinha sido aprovado naquele teste. A partir daquele momento eu era um certificado internacionalmente. No máximo dei um meio sorriso de boca, guardei aquele papel, fiz uma ou duas ligações informando calmamente o feito à duas pessoas próximas e fui embora. Me pergunto até hoje onde estava toda a euforia que eu sentiria. Todos os pulos de alegria que daria. Os abraços efusivos nos conhecidos. Nada disso aconteceu. Não aconteceu, creio eu, pela expectativa que gerei. Um resultado de uma prova ou de qualquer outra coisa, é o que é, e o que fazemos com ele é problema nosso. No meu caso, por alguma razão imaginei que ficaria muito exaltado quando recebesse a notícia de aprovação, mas nada disso aconteceu. Realizar que tudo o que eu esperava havia sido  sintetizado numa simples folha de papel com palavras de parabéns impressas mais alguns dados, aquilo me fez sentir um pouco estúpido, de certo modo.

E assim caminhamos na vida. Pondo expectativas em tudo e todos. Nenhum objeto é tão maravilhoso assim que te agradará para sempre. Em algum momento ele não mais atenderá suas expectativas e será descartado, mesmo que apenas mentalmente, às vezes.

Nenhum sonho é tão perfeito assim a ponto de ser realizado exatamente do jeito que imaginamos.

Apreciamos bastante a chuva, desde que ela não estrague nossos planos.

“(…) se você sabe que a pessoa com quem se relaciona tem um determinado comportamento e um jeito de pensar, então por que tentar mudá-la forçosamente?”

Há quem abandone cães quando se sentem traídos pelo animal ou por quem o vendeu, quando o pobre canino cresce e se revela um vira-lata, e não um raceado com pedigree, mesmo estando cheio de amor no coração.

As consequências do alimento de expectativas podem ser desastrosas, principalmente quando há vidas alheias diretamente envolvidas.

 

E assim também é com pessoas. Pomos expectativas sobre elas o tempo todo, em diferentes tipos e graus de relacionamento. Nos queixamos de alguém que sequer dá bom dia quando cruza conosco, do chefe ou subordinado que não faz o que deveria, do vizinho que canta alto, do político que não governa direito. Novamente tomo a audácia de dizer que todo estresse para com as pessoas gira em torno de nossas próprias expectativas.

Confúcio já disse:

“Exige muito de ti e espera pouco dos outros. Assim, evitarás muitos aborrecimentos.”

Não poderia deixar de falar dos relacionamentos amorosos, já que este é um dos campos que nossas expectativas se revelam mais perigosas. Aqui elas têm potencial paranóico e podem matar ao outro (e a nós próprios, literal e sentimentalmente falando). Pense comigo: quando alguém queixa-se várias vezes por ano, durante décadas, de que o marido ou a esposa engorda demais, sabendo que ele(a) tem um problema de crônico no metabolismo, quem mais parece culpado da situação? O reclamante ou o reclamado? Quem será o culpado ao exigir que um parceiro(a) que nunca se preocupou com vaidade, mantenha-se bem vestido sete dias na semana? Ou ainda, quem será o culpado por exigir uma performance sexual aquém do que o(a) parceiro(a) pode dar?

Onde quero chegar é: se você sabe que a pessoa com quem se relaciona tem um determinado tipo de comportamento e jeito de pensar, então por que tentar mudá-la forçosamente? Para atender suas expectativas, talvez? Enquanto temos poder de escolha, não seria mais simples compartilhar com ela pontos de vista, e caso não ficássemos satisfeitos, desviássemos do seu caminho e partirmos em outra direção? E caso consigamos mudar alguém, não nos esqueçamos da analogia do gelo.

Tudo e todos são dotados de uma natureza própria. Tolo aquele que acha que pode mudar tais naturezas em prol de um capricho egocêntrico, regido na maioria das vezes à base dos resmungo ou auto-lamentação.

Para ajudar nesta reflexão, indico a leitura do Capítulo X do livro O Pequeno Príncipe. Encerro este post com o seguinte trecho lá presente:

– E meu pôr-do-sol? Lembrou o principezinho, que nunca esquecia a pergunta que houvesse formulado.

– Teu pôr-do-sol, tu o terás. Eu o exigirei. Mas eu esperarei, na minha ciência de governo, que as condições sejam favoráveis.

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