Certamente você já deve ter ouvido a máxima “a vida é feita de escolhas”. De fato, escolhemos o tempo todo. Consciente ou inconscientemente fazemos escolhas, sejam elas pequenas ou grandes. Para toda ela, precisamos lidar com dois elementos importantes: a perda e o ganho.

Não importa a escolha que façamos. Sob algum ponto de vista sempre estaremos abrindo mão de alguma coisa. Assim como não importa o que escolhamos, sob algum ponto de vista, estaremos ganhando algo com isso.

Escolhas… levantar da cama; comer; beber; andar devagar; correr; procrastinar; tomar banho quente, morno ou frio; voltar; não tomar banho; reclamar; deixar pra lá; aprender; tentar esquecer; prosseguir; abrir mão; segurar o choro; salvar; ignorar; doar; fingir; trair; tentar fazer; chamar; expulsar; dar atenção; aceitar; deixar ir; segurar; prender; fechar os olhos; etc. Todo verbo ao nosso alcance parece ser guiado por uma força de decisão.

Básicas para uns, difíceis para outros

Escolhas são feitas o tempo todo. No entanto, algumas parecem ser mais básicas que outras e não nos causam grandes transtornos quando optamos por fazê-las. Porém, mesmo as decisões mais básicas, por mais que nos pareçam triviais e fáceis de serem executadas, podem não ser classificadas assim para outras pessoas, quiçá impossível.

Levantar da cama lenta ou rapidamente é uma escolha básica para alguns, mas talvez difícil demais para um recém-operado e impossível para um tetraplégico.

Prestar atenção aos detalhes visuais de algo é uma escolha básica para alguns, mas talvez difícil demais para um míope e impossível para um cego.

Prender a respiração voluntariamente por uns instantes, por qualquer que seja o motivo, é uma atitude facilmente fazível, mas inviável para alguém que esteja lutando pela vida sofrendo de asfixia.

Beber água provavelmente é uma tarefa fácil se você está em casa em uma cidade urbanizada, mas talvez muito difícil para alguém que esteja cercado por dunas, caminhando em pleno deserto.

E assim por diante. A dificuldade e o peso de uma escolha variam de pessoa para pessoa. Por isso — e por outros motivos — parece tão injusto julgarmos alguém de forma leviana. É necessário ter cautela.

“Não importa a escolha que façamos. Sob algum ponto de vista sempre estaremos abrindo mão de alguma coisa.”

Perdas e ganhos

Para toda sua decisão haverá uma perda e um ganho. Mesmo que você não enxergue tal dualidade imediatamente, com um pouco de meditação e observação isso se tornará possível.

Costumo dizer que as situações sobre as quais somos obrigados a decidir são como lençóis curtos em um ambiente frio. Deitados, precisamos decidir o que devemos cobrir: os pés ou os braços. Em outras palavras, tal divagação pode nos fazer refletir sobre o fato de que sempre abriremos mão de algo quando fazemos uma escolha. Em contrapartida, ganhamos algum benefício.

Se você falta ao trabalho, pode ser mal visto por um chefe, perder alguns clientes, ter menos lucro ou coisas afins, contudo você pode ganhar tempo livre para ir ao médico, dormir mais um pouco, cuidar de alguém ou resolver outros problemas pessoais, por exemplo.

Se você termina um namoro, pode sofrer com a saudade, a dúvida e a solidão, mas pode ganhar a oportunidade de conhecer um novo alguém que lhe traga novos aprendizados e bons sentimentos ou até mesmo ter mais tempo para si.

Se você abre mão da convivência com a família para fazer fortuna, seus filhos podem crescer carentes de amor paterno/materno ou correrá o grande risco de ressentir a morte de algum ente querido por não ter oferecido a devida atenção, mas você terá feito fortuna. Afinal, o objetivo de ganhar muito dinheiro foi atingido, e assim você poderá adquirir os patrimônios que sempre quis.

Abra mão de um sexo seguro e poderás ter um dos maiores prazeres que o corpo pode proporcionar, no entanto, correrás o risco de adquirir uma doença sexualmente transmissível e/ou uma gravidez indesejada.

Decida-se casar e você deixará de decidir as coisas sozinho, porém ganhará um braço de apoio para melhor suportar os desafios da vida.

Se você opta por abandonar o curso de Mestrado, opta também por ser mal visto pelo colegiado da instituição e você correrá o risco de criar um fantasma emocional, porém evitarás os estresses típicos de tal jornada e investirás o tempo requisitado para a pós-graduação em outras atividades — o mesmo o ócio.

E assim poderíamos falar sobre infinitos exemplos de decisões que permeiam nossas vidas. De modo a aumentar a reflexão, que tal ler os parágrafos  destacados acima sob uma perspectiva diferente? Por exemplo, em relação ao trecho relativo a término de namoro, poderíamos lê-lo da seguinte maneira:

Se você escolhe permanecer em um namoro, terá que aprender a tolerar todos os defeitos do(a) parceiro(a) ou mesmo correr certos riscos que põem em cheque sua felicidade, mas pode ser que você apenas esteja passando por uma fase ruim e você poderá ter muito a aprender sobre a pessoa que está ao seu lado, inclusive sobre si mesmo(a).

Quando ao trecho do Mestrado, uma outra perspectiva:

Se você opta por continuar a pós-graduação, mesmo desmotivado(a), mesmo estressado(a), se tornarás mais forte. Sua força de persistência será posta à prova e poderás sentir orgulho de si no final. Porém, isso tudo talvez ao preço do sacrifício da própria saúde, ou até mesmo ao preço do risco de concluir o curso com a indagação: “Sim… mas de que valeu todo esse esforço?”.

Tudo é uma questão de perspectiva. É de extrema importância salientar que todas as decisões têm um teor extremamente relativo. Não existem regras universais e rígidas o suficientes a ponto de ditarem a melhor escolha a ser feita para cada pessoa.

Decidir já, para não enlouquecer

Algumas decisões podem ser postergadas por anos sem causarem grandes transtornos. Outras exigem ação quase imediata. O fato é que o momento de escolher sempre chega, mesmo que a decisão seja não decidir. Contudo, podem haver momentos que algumas necessidades de escolha parecem se transformar em monstros terríveis, e, se não estivermos bem amadurecidos em nível de consciência a ponto de decidir rapidamente, somos massacrados emocional e mentalmente.

Pode ser que uma determinada escolha traga consigo consequências mais drásticas que outras opções, e que, se houvesse um pouco mais de tempo para pensar melhor, outra opção seria escolhida. No entanto, o pior é quando o prazo para a decisão chega e ainda estamos confusos. Logo, somos espremidos. O que não é muito saudável.

“(…)todas as decisões têm um teor extremamente relativo. Não existem regras universais e rígidas o suficientes a ponto de ditarem a melhor escolha a ser feita para cada pessoa.”

Carrego comigo uma máxima, cuja autoria desconheço, que diz:

As decisões mais difíceis de nossas vidas são as mais importantes.

Se partimos de uma visão de que toda decisão nos traz aprendizado, mesmo que esse seja inconsciente, uma decisão importante supostamente nos trará aprendizados ainda mais maiores.  O que é ótimo para o crescimento pessoal. Afinal, de que serve a vida sem  aprendizado? Não há atalho para a sabedoria. O caminho é pedregulhoso.

Indecisão é um tema recorrente na vida das pessoas e inevitavelmente escorre pelos vieses das artes. A música Se, de Djavan, por exemplo, trata de uma  necessidade de decisão que envolve sexo e paixão circundada pela dúvida. Eis alguns trechos da música:

“Você disse que não sabe se não
Mas também não tem certeza que sim
Quer saber?
Quando é assim, deixa vir do coração
(…)
Sei lá o que te dá, não quer meu calor
São Jorge, por favor, me empresta o dragão
Mais fácil aprender japonês em braile
Do que você decidir se dá ou não”

Em determinado momento do filme Karate Kid, o senhor Miyagi também orienta seu pupilo, Daniel LaRusso, a “sair de cima do muro”. Com sua metáfora dá a entender que se não escolhemos de que lado ficar — ou seja, não tomarmos uma decisão —, cedo ou tarde, somos esmagados no meio.

Na filosofia, destaco Nietzsche:

“Quando se toma uma decisão, é preciso tapar os ouvidos mesmo aos melhores argumentos contrários. É o indício de um caráter forte. Quando oportuno, deve-se, portanto, fazer triunfar a própria vontade até a estupidez.” (Além do Bem e do Mal).

Tomar uma decisão é necessário, mesmo que estas causem fantasmas emocionais. Pensar os pesos das opções sim. Adiar data da escolha, talvez. Se faz necessário termos em mente que a partir do momento que o desafio de uma decisão vem à tona, não há como fugir dele. Uma decisão precisará ser tomada dentro do seu respectivo prazo de validade. Do contrário, sofreremos com o peso da dúvida. E tal sofrimento poderá ser estendido a outrem quando as nossas escolhas não envolvem somente a nós mesmos.

Ao tomarmos uma decisão devemos ter cuidado para não sermos traídos por nossa própria mente, que tende a nos boicotar sempre que pode. Diria que decidir é a parte mais fácil, difícil mesmo é sustentarmos as nossas escolhas com firmeza.

Para finalizar, uma reflexão extra: será que algumas de suas decisões têm sido motivadas por um vício?!

E você? Como tem lidado com suas decisões difíceis?

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